Pedro e Camila - Hold On!

Conto 2 – Final

Na primeira folga que teve Camila foi a New York. Já tinha seu destino traçado. Entrou no Metropolitan Museum ávida. Ela não lembrava bem da disposição do local e, então, deixou-se levar pelo que via. Mas, na verdade, ela procurava pela esculturas de Rodin. Mármore preto…

Posted by Hµ63Z on

Conto 2 – Final

Na primeira folga que teve Camila foi a New York. Já tinha seu destino traçado. Entrou no Metropolitan Museum ávida. Ela não lembrava bem da disposição do local e, então, deixou-se levar pelo que via. Mas, na verdade, ela procurava pela esculturas de Rodin. Mármore preto… se pudesse, ela sentaria no chão e ficaria um bom tempo a observá-las. As formas traduziam a leveza de cada contorno, o brilho a fazia sentir o frio da pedra e a perfeição do polimento. Ela lembra do filme que assistira há um tempo atrás. Camile Claudel, a aprendiz e, mais que isso, a amante que buscava em Rodin o pai que todas as mulheres pensaram ter um dia.

Semelhanças ou coincidências à parte, elas tinham o mesmo nome. Claudel começou a viver pela arte quando se enfronhava em um ou outro lamaçal para ter a matéria-prima de sua existência. Ela carregava o barro em uma mala. Numa fração de segundos, Camila se viu carregando a mesma mala de Claudel. Ela lembrou da água que corria na sarjeta naquela tarde chuvosa. ‘Sovar o barro, lhe dar uma forma… Mas, de mim, nada sei ainda’.

Parece que isso bastou até que retornasse à sua rotina. Reuniões, estudos, aulas. Uma agenda lotada o suficiente para fazê-la chegar em casa exausta. Mas era nesse tempo, nesse momento de chegada da noite que Camila partia por entre as idéias que começavam a transcender, forçando-a a se entregar numa incansável tentativa de montagem de um mosaico ainda por demais fragmentado.

‘Pedro! Cumpri a promessa que fiz a mim mesma. Retornei ao Metropolitan pra ver as esculturas do Rodin! Depois fui andando até o delicatessen procurar meu amigo, na 8ª avenida. Mas ele não tava mais lá... A cidade tá linda! As folhas vermelhas nas árvores do Central Park… nossa! Que demais!’. Ela falava ao telefone e se emocionava por ter conseguido o feito da visita. Ele suspirava um sorriso que ela conhecia de longe. De repente, um silêncio. ‘Preciso ir, mas te deixo minha saudade’. É só o que ela podia dar naquele instante.

Chegou uma noite de sono tranqüila demais. Ela acordou na mesma posição em que estava quando adormeceu. A janela envidraçada tinha uma cortina de cor branca, tecido leve que não impedia a entrada da claridade. ‘Aqui não preciso despertador, o sol me acorda’. Ela se espreguiçou e se jogou na cama novamente. Quando caiu, fazendo o colchão balançar, mais uma vez foi invadida por um daqueles pensamentos enigmáticos. Era Mário Quintana que lhe dizia que ‘amar é mudar a alma de casa’.

Um bom café da manhã, uma caminhada de 50 minutos para, como ela costuma dizer, ‘balançar o esqueleto’. Uma chuverada e… trabalhar! ‘Que santo remédio!’ Naquela manhã ela deveria se encontrar com um dos coordenadores da escola de idiomas que estava visitando. Ele iria lhe passar as diretrizes que deveriam ser tomadas em todas as demais escolas filiadas. Isso seria fundamental para que Camila pudesse traçar os rumos para a implantação do seu projeto, assim que chegasse ao Brasil. ‘Estou vindo beber na fonte, então é melhor aproveitar’.

Era outono, mas estranhamente o dia estava quente. Ela se vestiu com uma riqueza de cuidados. O preto do vestido tinha o mesmo tom das meias e sapatos. Para arrematar, um batom cor cobre e um blaser amarelo, discreto o suficiente para quebrar o negro do restante da roupa. Foi o primeiro dia que usou a langerie que Pedro lhe dera. Era o dia de seu aniversário… Camila se olhou no espelho e desejou a si mesma um feliz aniversário.

A reunião havia começado. Ela apresentava alguns informes a respeito da sua escola de origem, detalhando dados levantados pelo seu chefe, antes do embarque. O tom da conversação era formal demais, Camila estava incomodada. Aquele homem a observava atentamente, cada movimento, cada palavra. ‘Nossa! Isso parece uma inquisição!’ Mas ela sustentava sua argumentação, certa de que estava dando o melhor de si. Talvez aquele momento estivesse colocando um dos maiores desafios com os quais já se confrontara desde que ingressou na profissão.

‘Cofee break! Ufa…’ O telefone toca, alguém a chama. ‘Não acredito! Como você me achou aqui?’ Ela abre um sorriso largo enquanto escuta a resposta e desliga o telefone certa de que ele a encontraria em qualquer lugar onde estivesse.

* * *

Aquele sorriso durou o dia todo. Mesmo séria, ela sorria. No final da reunião, um convite para jantar. Ela preferiu entender como uma gentileza para que passeasse na companhia de alguém. Aceitou, afinal era seu aniversário, e ela detestava a idéia de passar a data sem um brinde. A formalidade caiu por terra e o tal coordenador revelou-se encantador. Ele já viajara por muitos lugares. Camila adorava escutar essas histórias e, então, lhe forçou a não economizar as palavras. Regada a vinho tinto, ela passeou pelo Marrocos, conheceu Casablanca e foi a uma festa onde se dançava próximo a uma fogueira. Visitou uma feira, comprou adornos típicos e viu as turistas nórdicas sendo menosprezadas pelos homens da cidade.

Ela tinha a impressão de ser a personagem de um filme que, em breve, iria acabar. O enigma que Mário Quintana lhe trouxera no amanhecer percorria cada uma das histórias que ela escutava durante o jantar. Camila começou a contar das viagens que fez, dos lugares que visitou. Enquanto isso, revivia os medos e as surpresas que encontrava em cada novo lugar. A mesma cidade poderia ser muitos lugares e muitas viagens. Mas disso seu interlocutor não precisava saber. Camila era múltipla, controvertida e estava buscando um porto seguro.

Ele a levou para casa. Antes de deixá-la descer do carro, segurou uma de suas mãos e expressou seu encantamento. ‘Estou seduzida pelo encantamento dele. Como pode isso?’ Camila teve uma noite tórrida. O tal coordenador passeou por seus pensamentos e, a certa altura, ela foi tomada da lembrança de Pedro. Confusa e dividida, ela adormeceu. Não restava mais nada a fazer…

‘Tô com medo. Quem é esse homem? De onde ele tirou essa de estar encantado por mim? Vai ver ele só tá a fim de uma transa. Não vou cair nessa’. Mas era inevitável, ela o encontrava diariamente na escola. Fazia o possível para se manter afastada. Ele a cercava, ela fugia. Certo dia ele a avisou que iria ficar duas semanas sem aparecer. Ela vacilou e perguntou: ‘Por que?’ Ele queria que Camila sentisse a dor da ausência. ‘Por que? Por que eu preciso sentir a dor da ausência?’ Sim, segundo ele, esse seria o caminho para demovê-la de suas resistências.

Pedro apostara com outras fichas. De longe, ele se mantinha presente. Pelo telefone, ele sabia que Camila estava circulando por outros lugares. E, sem nada dizer, ele a fazia saber que estava perto. Ela sofria, não conseguia fazer uma escolha. Certa noite ela lembrou do sonho que, até então, estava fragmentado. Escutava aquela voz que ecoava o fatídico ‘Hold on! Hold on!’ Ela estava com os olhos vendados à procura daquele que lhe lançava o enigma e, quando se aproximava, a voz silenciava. Camila apalpava a escuridão e nada encontrava. Havia 3 corpos, ela não podia vê-los, era preciso reconhecê-los de outra maneira.

Tocou o primeiro. Ele sussurava no seu ouvido sugerindo que ela se deixasse levar por seus desejos mais carnais. Ele a instigava, relembrava os momentos que já haviam passado juntos. Ele fazia o sangue circular pela carne. Camila foi tomada de pavor, viu sua própria imagem, um corpo sobre um gancho… o açougueiro que corta a carne. ‘Não!!!!!!’

Camila continuou andando, até que encontrasse um outro. Silêncio… ele estava ali, tinha uma mala e alguns pertences ao seu lado… Ela está cansada, deixa os braços caírem ao longo do corpo e se aproxima mais. Os dois estão frente a frente e ela escuta o pulsar do sangue… sereno. Sente o calor da respiração. ‘Teu suspiro me chama? Tem outro segredo a me revelar?’ Ela percorre seu rosto com a mão e faz dele uma imagem. Na manhã seguinte Camila fez suas malas pra retornar às origens e seguir a trilha daquele suspiro.


Comentários

  1. Impressionado, uma história de amor que não é agua com açucar nem melação.

    Mas ainda acho que o melhor título seria “Aventuras da Camila” :)

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  1. Impressionado, uma história de amor que não é agua com açucar nem melação.

    Mas ainda acho que o melhor título seria “Aventuras da Camila” :)

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  1. Impressionado, uma história de amor que não é agua com açucar nem melação.

    Mas ainda acho que o melhor título seria “Aventuras da Camila” :)

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