Pedro e Camila - Hold On!

Conto 2 – Parte 3

Era a vitrine de uma loja que tinha um perfume no ar, algo do tipo envolvente e provocante. Ela sente um calafrio na espinha e pára antes de entrar. Ao fundo ela o vê apontando para uma langerie enquanto a vendedora se preparava para uma demonstração. Muito sorridente e falador, ele experimenta a textura e parece imaginar um corpo habitando aquele adereço de cor negra e enfestado de rendas.

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Conto 2 – Parte 3

Era a vitrine de uma loja que tinha um perfume no ar, algo do tipo envolvente e provocante. Ela sente um calafrio na espinha e pára antes de entrar. Ao fundo ela o vê apontando para uma langerie enquanto a vendedora se preparava para uma demonstração. Muito sorridente e falador, ele experimenta a textura e parece imaginar um corpo habitando aquele adereço de cor negra e enfestado de rendas. Ela se encanta e observa atentamente cada movimento que a fazia pensar que tudo continuaria no seu próprio corpo. ‘Deve ser pra mim aquela langerie. Uma surpresa!’ Ela lembra da noite anterior, e aquele silêncio enigmático do namorado, aquele silêncio tão surpreendente, a acompanha pelo restante do dia, até que chegasse em casa, ansiosa por encontrá-lo.

O relógio já acusava meia-noite e ele ainda não havia chegado. Ela sentia um vazio que não conseguia traduzir de forma alguma. Um misto de saudade, tristeza, decepção. ‘O que houve? Por que ele não chega com o meu presente?’. Ela já havia se adonado da langerie que o viu comprando. Tentava encontrar respostas para a demora e, a certa altura, passou a crer que a langerie não era mais sua, mas sim de outra.

Duas da madrugada, exausta, ela adormeceu, e ele chegou de mansinho para não acordá-la. Tirou os sapatos e a roupa e se ajustou nas curvas do seu corpo, como de costume. Ela acordou e, com um olhar de abandono, se viu frente a ele. Era um estranho, um traidor e ela, em frangalhos. ‘O que eu faço agora?’ Nem sinal de presente… só algumas palavras que justificavam o adiantado da hora.

Aquela noite passou como uma eternidade e, a certa altura, ela já se imaginou arrumando as malas e seguindo para a Filadélfia. Restava somente o passe do big boss. Na manhã seguinte, a secretária logo avisa: o chefe estava chamando para conversar. O projeto estava dentro das expectativas, mas ele não arredava pé da idéia de mandá-la para o tal aperfeiçoamento nos Estados Unidos. Essa seria a condição para a implantação do projeto. ‘Graças a Deus! Não tenho escolha. Melhor assim, tenho uma boa desculpa para ir embora sem deixar vestígios na vida daquele traidor!’. Ela saiu dali e já providenciou os contatos necessários para a viagem. No máximo em três semanas já estaria embarcando. O sofrimento estava com os dias contados…

Ela passou o restante do dia escutando Art of Noise, um nome sugestivo que traduzia bem o seu estado de espírito. Bem tecno, a música mesclava sons nada convencionais e palavras nada significativas. Randomizou o CD e esperou o dia passar, enquanto lhe ocorriam alguns flashes, lembrança do traidor que presenteou a amante com uma langerie. ‘Ele sabe que eu adoro as pretas e resolve dar uma assim pra outra mocréia?’

‘Você vai querer jantar?’ Ele responde afirmativamente e vai até a cozinha, se encarregando de preparar a salada. Corta os vegetais que sabe que ela adora, tempera ao gosto dela. ‘Que idiota! Tá querendo me agradar, só porque tá culpado!’ Ele comenta sobre coisas que aconteceram durante o dia, ri muito e se decepciona porque ela não participa. Ele não entende… Ela se cala de dor, lembrando da traição.

‘Não consigo deixar de pensar no que aconteceu ontem à noite. Não consigo acreditar que você tava bebendo chopp com os amigos’. Ele fica mais perdido ainda, fala, gesticula e, então, estende a mão para que ela o guie. Ela sente raiva, mas se aproxima e começa a tocar aquele corpo como se pudesse fazê-lo parte dela. Cada toque, uma história; cada suspiro, um encontro. Ela começa a narrar aquela história e vai deixando seu desejo levá-la para junto dele. ‘Eu sempre quis um homem que me desse o que você me dá, mas sinto que nos perdemos um do outro’. Ele gira e se põe sobre ela e, mais uma vez, a surpreende com um olhar até então desconhecido. O silêncio chega novamente. Ela se angustia e se entrega, pensando que lhe resta pouco tempo. As malas já estão quase prontas. ‘De mim, nada sei. E de ti?’

Os dias que antecederam o embarque foram povoados de limbo. O corpo não descansava, como se quisesse armazenar a presença dele. Brigas, planos, discussões e, depois, sexo. Cada dia uma nova personagem visitava o cotidiano dele. Ela estava no auge da sua criatividade, estava insaciável. Ele a adorava e a odiava porque decidiu partir. Ela vacilava, mas não conseguia esquecer que fora traída.

Aeroporto, faltavam 20 minutos para a chamada para o embarque. Ela vai até o banheiro e, ao retornar, começa a se despedir. Beijos, abraços, lágrimas. ‘Me deixa ir, eu preciso me encontrar’. Ele sorriu, balançou a cabeça, fazendo um esforço para concordar. Ela lembrou da traição. Era o único jeito que encontrara para deixá-lo.

Ela hospedou-se na casa de uma família local. Assim que a receberam, perguntaram como preferia ser chamada: ‘Camila’. Ela teve uma sensação de reencontro com seu próprio nome. Ali, onde tudo era estrangeiro, somente seu nome garantiria sua própria origem. Era o regaço que lhe restava.

Camila estava cansada, queria um pouco de sossego para se refazer da longa viagem. Um banho seria a melhor pedida para o momento. Abriu a mala, procurou uma roupa confortável. Um pacote lhe chama a atenção em meio às peças. Era perfumado, ela custa um pouco a identificar o cheiro, até que chegasse à loja de langerie. Um cartão completa o cenário, mesmo antes de ter aberto o embrulho: ‘Feliz aniversário!’ Ela rasga o papel num ímpeto e devora o conjunto de rendas negras com os olhos. Seu mundo desabou novamente. ‘Hold on! Hold on!’




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