Pedro e Camila - Hold On!

Conto 2 – Parte 2

‘A chuva parou. Vamos tomar banho.’ Mas não era isso que ele queria. Ele a mantém ali, ela se esforça pra sair, mas está cansada, sem corpo pra relutar. Robotizada, segue ausente, passeia por outros lugares, lembra da poça d’água que se jogou sobre ela.

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Conto 2 – Parte 2

‘A chuva parou. Vamos tomar banho.’ Mas não era isso que ele queria. Ele a mantém ali, ela se esforça pra sair, mas está cansada, sem corpo pra relutar. Robotizada, segue ausente, passeia por outros lugares, lembra da poça d’água que se jogou sobre ela. Ele pensava que era mais uma dentre as múltiplas personagens que o encantavam quando ela visitava sua cama. ‘Eu tô perdida! Me ajuda a me achar!’ Foi a primeira coisa que ela disse, depois de longo silêncio onde só se escutava o roçar dos corpos no lençol. ‘Eu tô perdida! Me ajuda a me achar!’ Ele achava que era mais uma senha que ela estava usando para apontar seu desejo. Então, ele se apruma e a penetra de uma só vez. Ela corcoveia e um pensamento a invade como um rojão: ‘Os homens não entendem nada de mulheres! Merda!!!!!’

Ele se empenha de uma forma nunca antes experimentada. Ela sabia que estava indo embora, ele não queria isso. O movimento estava para além do corpo, e ela fechava todas as portas pra se manter longe. ‘Me deixa ir! Eu preciso!’ Silencioso como nunca fora, ele falava outra língua. ‘Quem é esse homem?’ As mãos passeavam pelo corpo dela, a boca… ele estava descansado. Fogosa, a noite anterior tinha sido exaustiva. Ela sugou todas as forças dele. Ele deu tudo de si. Mas naquela maldita tarde, ele reservou uma surpresa. Seu membro, passeando dentro dela, não a deixava ir embora. Ele podia querer muitas coisas na vida, menos perdê-la. ‘Me deixa ir!’

Inquieta, robotizada, ela esperneia. Ela bate os braços e faz ecoar um som seco sobre os lençóis. Ela bate nele, ele se excita mais. Ele morde a boca dela bem devagar… num ritmo que se desencontrava da sincronia com os demais movimentos do seu corpo. Ele estava muito silencioso, ela estranhava isso. ‘Quem é? Quem é esse homem?’ Foi fatídica a pergunta. Ela foi tomada de um gozo que não conhecia. Como um frio que corre pela espinha de ponta-a-ponta, ela sentiu algo estremecer dentro de seu corpo, enquanto aquele amante a vestia com seu desejo.

Ela abre os olhos e o vê à distância, absorta na solidão mais primordial que só o gozo nos dá. Uma figura de um homem, uma fumaça que vem da primeira tragada do cigarro, um corpo jogado no chão. ‘Se não há o desejo de um homem, uma mulher é só um pedaço de carne.’ Sim, ela lembra de algo que nunca tivera pensado.

* * *

‘Eu já tô atrasada! Você não entende nada disso! Que droga! Metido a sabichão, só tá me atrasando!’ Ele revida dizendo que a metida a sabichona é ela. Possuída de raiva por causa da acusação por demais verdadeira, ela corta o fio do abajour que tentava consertar. Ele ri e se delicia ao vê-la desmontada. ‘Mas que droga! Você sempre faz isso! Não me deixa tentar, não me deixa errar! E, quando eu tento, me faz destruir tudo! Eu te odeio…’

Ele está no banheiro se barbeando, como se nada tivesse acontecido. ‘Me deixa escovar os dentes. Preciso ir, tô atrasada’. Ele não se move do lugar onde está. Ela o empurra com os quadris, ele se ajusta atrás dela, prensando-a junto à pia. ‘Ai!!! Não me aperta!’ Ela suspira, lotada de chateações. Ele sorri maliciosamente. Ela se irrita mais ainda. ‘Por que eu não vou embora de vez?’

Eram 8h30. Chegou atrasada. O chefe já estava aguardando a entrega do projeto que ela estava há dias preparando. Era preciso concatenar a aplicação das idéias que ela levou 3 meses organizando. Frente a frente com aquele que mais parecia um carrasco, ela suava frio: ‘Estão aqui o projeto impresso e a versão em disco. Acho que está bom’. Sisudo, o big boss (como ela costumava chamá-lo pelas costas) levanta a sobrancelha, folheia algumas páginas e diz que vai ler. Ele a manda sair da sala e ela vai… desolada porque esperava um elogio. ‘Putz! Hoje não é meu dia mesmo…’.

Ela pensava que todos a haviam escolhido para ser a primeira da fila: aquela que faz as vezes de saco de pancadas. Além de todas as dúvidas que tinha sobre si mesma, ainda tinha que aturar um chefe carrasco e um namorado sádico. Óbvio, ela achava que o mundo tinha se virado contra ela.

O chefe, aquele carrasco, havia sugerido um período de 3 meses nos Estados Unidos para um aperfeiçoamento que implementasse a aplicação do projeto que ela elaborara. Filadélfia ou Califórnia, ela poderia escolher um dos dois lugares. Ela voltou à sua sala, sentou naquela poltrona novinha que acabara de comprar para dar um toque especial ao ambiente e ficou ali, prostrada, durante alguns minutos, enquanto lembrava do tempo em que morou fora.

Era um dia muito frio, fazia cerca de 8 graus negativos. Gorro, luvas, manteiga de cacau nos lábios e um casacão de dar inveja. Ela chegou na estação rodoviária de New York e comprou um bilhete para Washington. Viajou… fones de ouvido a faziam lembrar do Brasil. Aquela música do tal de ‘beija eu’, da Marisa Monte, já tinha virado ‘kiss me’, e ela deixava os companheiros do ônibus se deliciarem com as melodias da terrinha além mar, enquanto se empenhava em traduzir os versos, ritmando-os. ‘Não dá pra conhecer o Brasil assim. Não tem como traduzir o Brasil’. Mas o pessoal gostou, queria conhecer outras músicas e, então, ela sacou os Titãs, em Go Back. As 4 horas de viagem passaram como num tapa, e ela sentiu que, ali, soltou a língua. O veio da nativa em verde-amarelo corria com uma veemência que precisava fazer aqueles yankes se apaixonarem pelo Brasil. Era preciso falar bem, usar as palavras mais adequadas. Sim! Ela conseguiu, e estava livre do fantasma da inibição para falar a tal língua universal. ‘Please, welcome Titãs, they’re bringing us the Go Back!’

Um estalo. ‘Me arrependo de não ter descido daquele ônibus na Filadélfia. Talvez esse seja o momento de voltar. Será que eu conseguiria? Solidão, apalpar o colchão e não ter ninguém do lado. Ai! Que medo! Queria saber o que eu vou encontrar lá...’. Ela se levanta da poltrona, senta-se na mesa e puxa para junto de si um grande cristal que ganhou de presente de uma amiga. ‘Isso poderia ser uma bolinha de adivinhação, então eu saberia do meu futuro’.

O estômago começa a reclamar, ela lembra de um amigo que lhe dizia ‘vais matar o que está te matando?’. Sim, já estava na hora do almoço e, depois, ela tinha a tarde livre. ‘Vou ao shopping…’.




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