Inclusiva?

Esse depoimento eu escrevi para o 3º Encontro Estadual de Educação Inclusiva, que ocorreu no dia 3 de Junho de 2006.

Posted by Hµ63Z on

Meu nome é Luiz Guaraldo, Tenho 29 anos e tive toda minha educação formal em escolas “clássicas”, onde o importante era a criança ir bem nas disciplinas curriculares (português, matemática, etc).

A minha escola não aceitava alunos com necessidades especiais, sequer tinha rampa de acesso. Meu avô era cadeirante, devido a três AVCs que sofrera até a época. Mas para mim, assim como, acredito, para outros alunos, dificuldades de locomoção eram coisas de idosos.

Outras deficiências nem passavam pela minha cabeça. E quando eu via alguma criança deficiente, achava aquilo tão distante (quase de outro mundo) e minha mãe apressava-se em pedir que eu não ficasse olhando.

Depois de um tempo, tive uma colega cadeirante e era uma das melhores alunas. Ela tinha sofrido um acidente, e percebi, então, que deficiências não são coisas de outro mundo e podem acontecer com qualquer um.

Cresci e vi que o mundo é cheio de diferenças, todos somos diferentes. Participei de projetos sociais, grande parte deles junto à APAE/SP. Neles muitas vezes visitavamos crianças com alguma síndrome, deficientes auditivos ou visuais e elas brincavam. Exceto por algumas adaptações, eu não conseguia ver diferenças nas brincadeiras dessas crianças e as que eu fazia com meus amigos nos ídos tempos da minha infância.

Casei-me, tive meus filhos e tinha certeza que eu não esconderia a realidade do mundo deles, pois ninguém é perfeito, mas ninguém é de outro mundo e nenhum ser vivo merece a indiferença. Alguns precisam de mais atenção que outros, e vejo que são justamente aqueles que minha mãe pedia que eu não ficasse olhando.

Quando procurava uma escola para meus filhos, encontrei muitas escolas boas, com “curriculo” escolar muito bom e professoras, aparentemente, muito competentes. No entanto, algumas tinham diretoras apáticas, outras não permitiam a presença de pais na escola, outras ainda tinham as crianças apáticas à presença de uma visita.

Duas escolas me chamaram a atenção:

  • Uma delas convencional, seu ponto forte era a inicialização esportiva, ficando a escola dentro do clube em que sou sócio. Por ser sócio, o valor da mensalidade seria bem inferior à outra. Mas quando levei meu filho mais velho para visitar e nos ajudar a escolher, ele me pareceu um pouco “perdido”. Claro que era a primeira vez em que estava lá e qualquer criança se sentiria “fora de sua turma”.
  • A outra tinha professoras muito motivadas, assim como a primeira. tinha também um projeto pedagógico muito interessante, uma equipe multidisciplinar muito respeitada. Quando meu filho foi visitar, a turma em que ele entraria o recebeu em festa. E não era uma festa de aniversário de um coleguinha… nem bolo tinha, mas tinha toda a animação de uma turma que estava adorando ter um novo colega chegando.

Ao chegar em casa, já tinhamos certeza, mas queriamos ouvir a opinião do Lucas, que iria aquela escola todos os dias. Perguntamos a ele: “E aí, Lucas, qual escola tu gostaste mais?”. Sua resposta só confirmou nossa certeza.

O que vejo na escola que escolhemos para meus filhos é um cuidado exclusivo, prestando atenção a cada criança como um indivíduo único e maravilhoso, não importando as dificuldades que tenha, mas tentando minimizá-las para que possa se desenvolver em sua única e maravilhosa plenitude. Além disso, a equipe de professoras mostram-se atenciosas, compreensivas e muito bem aparadas pela equipe multidisciplinar. A pedagogia de projetos é uma ferramenta maravilhosa, em que as crianças, orientadas pelas professoras, conversam e entram em um concenso sobre o que será seu projeto.

Tendo esse concenso, cabe à professora ajudá-los a adiquirir o desenvolvimento condizente com sua idade e com suas capacidades trabalhando em cima do projeto, seja ele qual for. Os trabalhos em conjunto dentro da turma e com turmas próximas ajudam na convivência e na tolerância às diferenças. Eventos comunitários envolvem toda a escola, cada qual com seu potencial e seu aprendizado, como o Vernissage – uma grande mostra de trabalhos artisticos – ou as datas comemorativas.

A convivência com as diferenças torna meus filhos mais tolerantes e preparados para viver em sociedade, prestando atenção ao que ocorre em sua volta em toda a cidade. Eles percebem, por exemplo, que a vovó não pode caminhar rápido e cuidam para que suas brincadeiras não a atrapalhem; percebem os ônibus com acesso universal e as rampas de acesso de prédios.

Devido a minha criação, muitas vezes não me dava conta de como eram importantes os acessos universais, mesmo porque eu não me envolvia muito com meu avô cadeirante, mas, depois de adulto e vendo pessoas com ou sem deficiências terem dificuldades de exercer seu direito de ir e vir, comecei a me dar conta de como são essenciais esses valores, e acho que apenas em casa não se consegue passar essa valorização aos filhos, eles tem que vivenciar as diferenças.

Apenas com a vivência com uma grande diversidade de situações é que eles serão possíveis de ver que cada pessoa tem seu potencial único, capaz de o destacar dos outros pelo que faz, e não pelo que deixa de fazer.

A sociedade atualmente está cada vez mais competitiva, não pretendo mudar o mundo, mas não precisa ser uma competição nociva. Creio que estou fazendo minha parte, ensinando meus filhos a viver em paz com todos, respeitando as diferenças e as falhas, sem recriminação, mas tentando ajudar no que for possível para que as pessoas explorem ao máximo o potencial que têm.

Por coincidência, taxam a escola que escolhi para meus filhos de escola inclusiva. Eu chamo de ESCOLA, pois não vejo outro tipo de educação que não seja essa!


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