Fumaça Ética

“Obrigado por fumar” é uma comédia leve, dirigida por Jason Reitman, que tem um drama ético sofrido pelo seu personagem principal. Neil é vice-presidente de uma entidade que gere fundos para pesquisa sobre Tabaco, financiada principalmente pela industria de cigarros norte-americana e esforçando-se bastante para que os resultados de suas pesquisas não agrida os negócios de seus financiadores. Só isso já mostra que o filme tem uma boa trama, mas entre uma entrevista, cercado de um público antitabagista, super indústrias de cigarro e um senador norte-americano empenhado em acabar com o tabagismo, Neil ainda tem que lidar com um filho pré-adolescente e uma ex-mulher que o detesta.

Posted by Hµ63Z on

“Obrigado por fumar” é uma comédia leve, dirigida por Jason Reitman, que tem um drama ético sofrido pelo seu personagem principal. Neil é vice-presidente de uma entidade que gere fundos para pesquisa sobre Tabaco, financiada principalmente pela industria de cigarros norte-americana e esforçando-se bastante para que os resultados de suas pesquisas não agrida os negócios de seus financiadores. Só isso já mostra que o filme tem uma boa trama, mas entre uma entrevista, cercado de um público antitabagista, super indústrias de cigarro e um senador norte-americano empenhado em acabar com o tabagismo, Neil ainda tem que lidar com um filho pré-adolescente e uma ex-mulher que o detesta.

Durante o percurso do filme, o personagem é levado a tomar decisões nada fáceis e sem muito tempo para pensar, que o colocam em conflito ético e moral. Situações como mentir para a população, ser insensível com o sofrimento alheio, calar um ícone do tabaco para que a indústria tabagista não seja processada, e argumentar de forma evasiva diante do senado levando a discussão para fora do problema a ser debatido fazem-nos pensar: afinal de contas, o que é moral e o que é ética na sociedade que temos atualmente?

Neil é a personificação do sujeito antiético, imoral e capaz de colocar o próprio filho em risco para atingir seu objetivo. Um personagem que assim que o conhece tem-se asco e total aversão a sua forma de lidar com as situações. No entanto, durante o passar da história, verifica-se que o personagem não é o defensor ferrenho da nicotina, pois se fosse, não evitaria fumar junto ao filho. Essa mesma cena mostra o profundo amor que ele sente pelo filho e o quanto estar com a criança o torna um ser humano melhor.

A capacidade de argumentar deste personagem é o que o levou ao topo desta cadeia de pesquisar sem que se tenha resultados conclusivos e fazer propaganda antitabagista para angariar mais fumantes, mas não sem pesares. Como poderia ele ensinar o filho que fumar faz mal sendo um fumante e defensor da indústria tabagista? Paradoxo? Na verdade não, pois Maquiavel já havia estudado tal fenômeno político no século XV, descrevendo-o em seu livro consagrado, “O Príncipe”.

Neste livro, tido como uma revolução política não por alterar a forma como ela era feita, mas por retratá-la exatamente como ela era e ainda é, Maquiavel mostra que na política não existe ética, moral ou qualquer dogma religioso ou natural. A política é, acima de tudo e de todos, a intenção humana de tomar e manter o poder, tomando-se apenas o cuidado para não ser odiado pela maioria da comunidade que lidera.

Neil é deste tipo de liderança, que quando colocado contra a parede, aparentemente odiado por todos, usa da palavra para criar um discurso empolgante. A empolgação que cria nas massas dissipa o ódio, tornando-o uma pessoa aceitável, um “mal necessário” para a sociedade. Vê-se claramente esse efeito durante uma entrevista em rede nacional de televisão onde, roubando a fala da própria apresentadora, cria um discurso improvisado, retalhando os outros convidados do programa antes mesmo que tivessem oportunidade de falar. Com essa manobra, o público que o vaiava fortemente transformou-se em uma massa de aplausos acalorados.

Essa personalidade forte representa uma indústria poderosa que não pretende perder esse poder. Assim, com intenção de manter seu emprego, quando em sua posição profissional age como é necessário, mesmo que isso vá contra seus princípios. No entanto, agindo como qualquer pai, tenta passar valores éticos e morais ao seu filho. A situação fica ainda mais complicada quando o filho consegue argumentar com sua mãe a acompanhá-lo em uma viagem de trabalho, prevalecendo-se das táticas ensinadas pelo ótimo orador que é seu pai.

A capacidade oratória de Neil vem de uma falácia, por muitas vezes aceita como algo palpável, que diz que mais importante que mostrar que seu ponto de vista está correto é mostrar que o ponto de vista contrário está errado. Essa premissa é falha pois não leva em consideração a possibilidade de nenhuma das opções ou mesmo todas elas estarem corretas. Quem leva uma discussão para esse nível pode até sair “vitorioso” do debate, mas não levará o debate a lugar nenhum, sendo um debate vazio de ideias.

Nessa viagem o lado humano do personagem aflora, mostrando-se temeroso de mostrar ao filho algumas canalhices que seu trabalho o força a fazer. E essa crise o persegue de tal forma, que acaba se envolvendo com uma jornalista e, na intimidade da cama, acaba contanto coisas que não devia. Perde o emprego, mas ganha liberdade ética para se opor ao sistema tabagista, mostrando a seu filho que é um homem respeitável. Esse ponto é apresentado no filme quando nega ao seu ex-patrão o retorno ao emprego e o reconhecimento que tinha.

Assim Neil descobre que ter o reconhecimento de seus entes mais queridos vale muito mais que ter o reconhecimento do mundo inteiro. E o ser humano é, basicamente, esse desejo de reconhecimento, o desejo de ser querido, de estar junto da sociedade, mesmo que tenha que ferir alguns conceitos morais particulares. O jogo interno do ser humano é a corda bamba entre estar junto da massa, aceitando seus preceitos de moralidade coletiva, e estar atendendo aos desejos particulares, cuidando unicamente de seus preceitos e suas vontades, mesmo que pouco aceito pela sociedade.

Ética é uma capacidade intrínseca do ser humano pensar o mundo a sua volta e refletir suas coisas boas e ruins. O que diz que é bom ou ruim é a moral de cada um, dogmas e ensinamentos passados de pais para filhos, que pretendem conduzir-nos a sermos como deveríamos ser. A ética analisa se as coisas boas são realmente boas para si, bem como se as coisas ruins não são necessárias para sua vida, junta esses fatores, mergulha fundo na desconstrução do bom e ruim e ajuda o ser humano a tomar a atitude necessária para o momento.


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