Chico Buarque não é nenhuma unanimidade, muito pelo contrário, a maioria o tem como um cantor de voz desafinada, rouca e sem expressão. No entanto, em matéria de composição, o filho do seu Aurélio (sim, aquele do dicionário) é um gênio.
Mas ele não é gênio só por escrever coisas muito elaboradas literariamente. Ele escreve as coisas simples do cotidiano do povo brasileiro com a cadência e o cuidado de um artesão. Suas letras são poemas, com mética e rimas perfeitas, um deleite para professores de literatura.
Cotidiano
Chico Buarque
Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode as seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã
Todo dia ela diz que é pra eu me cuidar
E essas coisas que diz toda mulher
Diz que está me esperando pro jantar
E me beija com a boca de café
Todo dia eu só penso em poder parar
Meio dia eu só penso em dizer não
Depois penso na vida pra levar
E me calo com a boca de feijão
Seis da tarde, como era de se esperar
Ela pega e me espera no portão
Diz que está muito louca prá beijar
E me beija com a boca de paixão
Toda noite ela diz pra eu não me afastar
Meia-noite ela jura eterno amor
Me aperta pra eu quase sufocar
E me morde com a boca de pavor
Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode as seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã

Jan 20, 16:07
Começei a gostar do Chico justamente quando ouvi esta música dele.